Como o Carrefour promove a inclusão de pessoas trans no mercado de trabalho

Rede incentiva e valoriza a diversidade por meio de cartilha, ações internas e formação da liderança

Com o objetivo de preparar pessoas transexuais para o mercado de trabalho, em 2015, o Carrefour, em parceria com o Conexão Varejo, ajudou na criação de uma turma para formação profissional de pessoas trans – nessa turma, transexuais receberam um treinamento básico com a possibilidade de serem contratadas pelo Carrefour ou por outras empresas que apoiam o projeto.   

No curso foi ensinado como funciona o mercado de trabalho. As participantes aprenderam a trabalhar com atendimento ao cliente, formatar currículos para a área de varejo alimentar e fizeram uma visita ao Carrefour. Após a conclusão da capacitação, os currículos das alunas foram encaminhados ao RH de todas as empresas filiadas ao projeto e, a partir disso, cada filiada ficou encarregada de chamar, conforme a necessidade.

Entretanto, para incluir esse grupo social foi necessário trabalhar, ainda mais, a comunicação interna. “Não seria possível contratar sem que antes a turma interna tivesse um mínimo de contato com o tema”, conta Karina Chaves, gerente de Diversidade e Responsabilidade Social no Carrefour. O Comitê da Valorização da Diversidade, que existe desde 2013, desenhou como trabalhar o tema dentro da instituição. A comissão contou com a contribuição de diversas áreas do Carrefour: jurídico, marketing, RH, comunicação, prevenção de risco, entre outros.

O primeiro passo para colocar em prática esse mapeamento foi treinar líderes de todas as áreas e disponibilizar materiais para os funcionários se conscientizarem. Com isso, foi criada e distribuída a Cartilha Valorizamos a Diversidade – material interno que reúne o que é a diversidade e as boas práticas e valores da companhia, trazendo ainda orientações sobre como solucionar possíveis situações de conflito em cada um dos recortes de diversidade, como gênero, etnia, orientação sexual, religião, idade, estética e pessoa com deficiência. Também foi elaborada a semana da diversidade, onde, anualmente, é trabalhado o tema por meio de palestras e vídeos. Por fim, foram realizadas conversas com gerentes de lojas – locais que mais empregam pessoas transexuais -, que foram essenciais para expandir conhecimento.

Dessa forma, o Carrefour mostrou que inclusão social não é apenas a contratação de pessoas que sofrem preconceito no meio em que vivem, mas, também, é levar informação a todos. A gerente garante “à medida que colocamos pessoas transexuais, vamos ajudando a sociedade a repensar a maneira como olhar para esse grupo, isso é ousado e, felizmente, tem dado certo”, conclui.

Luana, funcionária trans de uma das redes Carrefour.

Foto por Walter Craveiros

DICAS PARA SUA EMPRESA: 

Conscientize seu público interno: o primeiro passo para ser uma empresa inclusiva é conhecer o outro e acabar com preconceitos. Dialogue com todos os funcionários e leve informações básicas e didáticas de gênero e sexualidade – para isso pode ser feito um trabalho com apoio de psicólogos, organizações não-governamentais, consultorias aliado a comunicação interna; 

Prepare treinamento ou procure entidades que forneçam esse treinamento para desenvolver profissionais transexuais: Sendo um dos países que mais mata pessoas trans, as oportunidades de estudo e de desenvolvimento profissional também são mais baixas. Dessa forma, para solucionar esse problema, pode ser feito um trabalho de base dando oportunidades de ensino específicas para pessoas trans; 

Dê espaço: Além de não praticar a exclusão, deixando claro na seleção que sua empresa aceita profissionais diversos, é importante inseri-los na empresa. No Carrefour, por exemplo, as pessoas trans podem se candidatar a todas as vagas disponibilizadas pelos processos seletivos regulares disponíveis nas células de seleção e lojas da rede espalhadas pelo Brasil. Atualmente, as colaboradoras trans do Carrefour atuam nas lojas da rede em diversas funções, como, por exemplo, frente de caixa, patinadoras, auxiliar de padaria, auxiliar de setor de eletroeletrônicos, dentre outras. Hoje em dia, mais de 30 pessoas trans trabalham em lojas da rede pelo Brasil.

Márcia Rocha, fundadora do Transempregos no Congresso Diversidade e Inclusão Corporativa (CDIC)

Foto por Aline Fernandes

QUEM PROCURAR?

Rede Cidadã

A Rede Cidadã é uma organização social que foi criada exatamente para ser um braço executor de projetos de responsabilidade social empresarial. Ela mantém um papel fundamental para a preparação de pessoas transexuais no mercado varejista através do programa Conexão Varejo. O projeto surgiu em 2012 com a preparação de jovens para o ambiente corporativo, porém, depois de três anos foi discutido um novo modelo para a inclusão desse grupo social, segundo Fernando Alves, diretor executivo. Essa remodelação ocorreu após a empresa chegar à conclusão de que a saída para o preconceito é dar um trabalho formal para aqueles que sofrem discriminação. É por meio desse projeto que o Carrefour e outros parceiros empregam pessoas transexuais em suas redes de supermercado. Das 50 formações realizadas em 2016, só o Carrefour contratou 15 profissionais.

Para que esse tipo de projeto social fosse levado às empresas, a Rede Cidadã procurou entender com ONGs especializadas no tema. Dessa maneira, foi estudado e alguns questionamentos foram esclarecidos durante a pesquisa realizada, uma das dúvidas era o alto índice de transexuais na prostituição. A organização chegou à conclusão de que a saída era conceder um trabalho formal, mas, para isso acontecer, era necessário preparar esses profissionais para o mercado de trabalho.

Com o projeto realizado, a Rede Cidadã ficou responsável por falar com diversas empresas do setor privado para que colaborassem na contratação desses profissionais. Para “vender” o programa e atrair parceiros, a organização procura sempre falar sobre o número de contratações e das instituições parceiras do projeto.

Transempregos

Além disso, outro projeto que vêm dando certo para o aumento de pessoas transexuais no mercado de trabalho formal é a plataforma de empregos chamada Transempregos. O site foi uma iniciativa de um grupo de amigos que, após perceberem a falta de oportunidade que assola esse grupo social, resolveu arrumar uma forma mais “fácil” para que empresas fiquem por dentro das habilidades profissionais de transexuais e travestis. O portal é totalmente gratuito tanto para empresas quanto para pessoas físicas que desejam se candidatar a alguma vaga. 

No ar desde 2013, o projeto foi dividido em duas fases. A primeira foi constituída na montagem do site; como plataforma, design e a procura pelos anúncios de vagas. A segunda fase foi realizada após perceberem que as vagas anunciadas eram poucas; dessa forma, o grupo realizou um trabalho para levar conscientização às empresas multinacionais e, assim, aumentar o número de anúncios no site. 

Nessa etapa, o grupo fundador do Transempregos realizou palestras para abordar o tema e em como os líderes deveriam agir frente a uma transição de gênero de algum funcionário. A partir disso, o número de vagas para o site aumentou. Entre as que mais contrataram está o Carrefour.

Uma das criadoras do Transempregos, Márcia Rocha, não possui dados de levantamento para saber das instituições que contrataram e transexuais que foram beneficiadas com o projeto. “A gente acredita que se há estatística existe o preconceito, porque aí tem a separação social”, explica a Rocha. Mas, ela relata que algumas pessoas recolocadas no mercado de trabalho a procuraram para dar feedbacks positivos sobre a ação. 

O portal é livre, então, as organizações e as transexuais podem se cadastrar sem que haja a necessidade de burocracia. O principal papel da página é de reconhecer as capacitações profissionais das pessoas transexuais e travestis.


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